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Revista Espírita 1867 » Setembro » Caracteres da revelação espírita (1)

CARACTERES DA REVELAÇÃO ESPÍRITA[1]

 

1. ─ Pode-se considerar o Espiritismo como uma revelação? Neste caso, qual o seu caráter? Sobre o que se funda sua autenticidade? A quem e de que maneira foi ela feita? A Doutrina Espírita é uma revelação, no sentido litúrgico do vocábulo, isto é, é em todos os pontos produto de um ensino oculto, vindo do alto? É absoluta, ou suscetível de modificações? Trazendo aos homens a verdade acabada, teria a revelação o efeito de impedi-los de fazer uso de suas faculdades, porquanto lhes poupa o trabalho de pesquisa? Qual pode ser a autoridade do ensino dos Espíritos, se eles não são infalíveis e superiores à Humanidade? Qual a utilidade da moral que eles pregam, se essa moral não é senão a do Cristo, que é conhecida? Quais as verdades novas que eles nos trazem? Necessita o homem de uma revelação e não pode achar em si mesmo e em sua consciência tudo quanto lhe é necessário para se conduzir? Tais são as perguntas sobre as quais importa fixar-se.

2. ─ Para começar, definamos o sentido do vocábulo revelação.

Revelar, derivado de véu ─ do latim velum ─ significa literalmente tirar o véu; e, no sentido figurado: descobrir, fazer conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Em sua acepção vulgar mais geral, diz-se de toda coisa ignorada que é trazida à luz, de toda ideia nova posta no caminho daquilo que não se sabia.

Deste ponto de vista, todas as ciências que nos dão a conhecer os mistérios da Natureza são revelações, e podemos dizer que há para nós uma revelação incessante. A Astronomia nos revelou o mundo astral, que não conhecíamos; a Geologia, a formação da Terra; a Química, a lei das afinidades; a Fisiologia, as funções do organismo, etc. Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier são reveladores.

3. ─ O caráter essencial de toda revelação deve ser a verdade. Revelar um segredo é dar um fato a conhecer. Se a coisa for falsa, não é um fato e, por consequência, não há revelação. Toda revelação desmentida pelos fatos não é revelação; se for atribuída a Deus, e não podendo Deus nem mentir nem enganar-se, não pode emanar dele. Há que considerá-la como pro­duto de uma opinião pessoal.

4. ─ Qual o papel do professor perante os alunos, senão o de um revelador? Ele lhes ensina o que eles não sabem, o que não teriam tempo nem possibilidade de descobrir por si mesmos, porque a ciência é a obra coletiva dos séculos e de uma multidão de homens que trouxeram, cada um, seu contingente de obser­vações, das quais se aproveitam os que vêm depois deles. O ensinamento é, pois, na realidade, a revelação de certas verdades científicas ou morais, físicas ou metafísicas, feita por homens que as conhecem, a outros que as ignoram e que, sem isto, as ignorariam sempre.

5. ─ Mas o professor só ensina o que aprendeu: é um revelador de segunda ordem. O homem de gênio ensina o que ele próprio encontrou: é o revelador primitivo; ele traz a luz que, pouco a pouco, se vulgariza. Onde estaria a Humanidade sem a revelação dos homens de gênio, que aparecem de tempos em tempos?

Mas, que são os homens de gênio? Por que são homens de gênio? De onde vêm? Em que se tornam? Notemos que a maioria deles ao nascer trazem faculdades transcendentes e conhecimentos inatos, para cujo desenvolvimento basta um pouco de trabalho. Eles pertencem realmente à Humanidade, porquanto nascem, vivem e morrem como nós. Onde, então, beberam esses conhecimentos, que não puderam adquirir em vida? Dirão, com os materialistas, que o acaso lhes deu a matéria cerebral em maior quantidade e de melhor qualidade? Neste caso eles não teriam mais mérito do que um legume maior e mais saboroso que outro.

Dirão, com certos espiritualistas, que Deus os dotou com uma alma mais favorecida que a do comum dos homens? Suposição também ilógica, porque acusaria Deus de parcialidade. A única solução racional deste problema está na preexistência da alma e na pluralidade das existências. O homem de gênio é um Espírito que viveu mais tempo; que consequentemente adquiriu mais progresso do que aqueles que são menos adiantados. Encarnando-se, ele traz o que sabe, e como sabe muito mais que os outros, sem ter necessidade de aprender, ele é o que se chama um homem de gênio. Mas o que sabe não deixa de ser fruto de um trabalho anterior, e não o resultado de um privilégio. Antes de renascer ele era, pois, um Espírito adiantado; ele se reencarna, seja para que os outros aproveitem o que ele sabe, seja para adquirir ainda mais.

Incontestavelmente os homens progridem por si mesmos e pelos esforços de sua inteligência. Mas, entregues às suas próprias forças, esse progresso é muito lento, se não forem ajudados por homens mais avançados, como o estudante o é por seus professores. Todos os povos têm tido seus homens de gênio, que vieram, em diversas épocas, dar-lhes um impulso e tirá-los de sua inércia.

6. ─ Considerando-se que admitimos a solicitude de Deus por suas criaturas, por que não admitiríamos que Espíritos capazes, por sua energia e pela superioridade de seus conhecimentos, de fazer a Humanidade avançar, se encarnem, pela vontade de Deus, visando ajudar o progresso num determinado sentido; que recebam uma missão, como um embaixador a recebe de seu soberano? Tal é o papel dos grandes gênios. Que vêm eles fazer senão ensinar aos homens verdades que estes ignoram, e que teriam ainda ignorado por longos períodos, a fim de lhes dar um degrau com cujo auxílio poderão elevar-se mais rapidamente? Esses gênios, que surgem através dos séculos, como estrelas brilhantes, deixando após si um longo rastro luminoso sobre a Humanidade, são missionários, ou, se preferirem, messias. Se eles não ensinassem aos homens nada além do que estes sabem, sua presença seria completamente inútil. As coisas novas que eles lhes ensinam, quer da ordem física, quer da ordem filosófica, são revelações.

Se Deus suscita reveladores para as verdades científicas, ele pode, com mais forte razão, suscitá-los para as verdades morais, que são um dos elementos essenciais do progresso. Tais são os filósofos, cujas ideias atravessaram os séculos.

7. ─ No sentido especial da fé religiosa, a revelação se diz mais particularmente das coisas espirituais que o homem não pode saber por si mesmo, que não pode descobrir por meio dos sentidos, e cujo conhecimento lhe é dado por Deus e por seus mensageiros, quer por meio da palavra direta, quer pela inspiração. Neste caso, a revelação é sempre feita a homens privilegiados, designados sob o nome de profetas ou messias, isto é, enviados, missionários, tendo a missão de transmiti-la aos homens. Considerada sob este ponto de vista, a revelação implica a passividade absoluta; é aceita sem controle, sem exame, sem discussão.

8. ─ Todas as religiões tiveram seus reveladores, e embora todas estejam longe de haver conhecido toda a verdade, eles tinham sua razão de ser providencial, porque eram adequadas ao tempo e ao meio em que viviam, ao gênio particular dos povos aos quais falavam, aos quais eram relativamente superiores. A despeito dos erros de suas doutrinas, não deixaram de abalar os espíritos e, por isso mesmo, semearam germes de progresso que mais tarde deviam espalhar-se, ou se espalharão um dia, ao sol do Cristianismo. É, pois, sem razão que lhes jogam o anátema em nome da ortodoxia, porque dia virá em que todas essas crenças, tão diversas na forma, mas que em realidade repousam sobre o mesmo princípio fundamental: ─ Deus e a imortalidade da alma ─ fundir-se-ão numa grande e vasta unidade, quando a razão houver triunfado dos preconceitos.

Infelizmente, em todos os tempos, as religiões têm sido instrumentos de dominação; o papel de profetas tentou ambições secundárias e viram-se surgir inúmeros pretensos reveladores ou messias que, valendo-se do prestígio desse nome, exploraram a credulidade em proveito de seu orgulho, de sua cupidez ou de sua preguiça, achando mais cômodo viver à custa de suas vítimas. A religião cristã não ficou ao abrigo desses parasitas. A esse respeito, chamamos a atenção séria para o Cap. XXI de O Evangelho segundo o Espiritismo: “Haverá falsos Cristos e falsos profetas.”

9. ─ Há revelações diretas de Deus aos homens? É uma questão que não ousaríamos resolver nem afirmativa nem negativamente de maneira absoluta. A coisa não é radicalmente impossível, mas nada lhe dá uma prova certa. O de não poderíamos duvidar, é que os Espíritos mais próximos de Deus pela perfeição se penetrem de seu pensamento e possam transmiti-lo. Quanto aos reveladores encarnados, segundo a ordem hierárquica a que pertencem e ao grau de seu saber pessoal, podem colher suas instruções em seus próprios conhecimentos, ou recebê-las de Espíritos mais elevados, quiçá dos mensageiros diretos de Deus. Estes, falando em nome de Deus, por vezes foram tomados como o próprio Deus.

Essas espécies de comunicações nada têm de estranho para quem quer que conheça os fenômenos espíritas e a maneira pela qual se estabelecem as relações entre encarnados e desencarnados. As instruções podem ser transmitidas por diversos meios: pela inspiração pura e simples, pela audição da palavra, pela vista dos Espíritos instrutores nas visões e aparições, quer em sonho, quer em vigília, como se veem muitos exemplos na Bíblia, no Evangelho e nos livros sagrados de todos os povos. É, pois, rigorosamente exato dizer que a maioria dos reveladores são médiuns inspirados, auditivos ou videntes, de onde não se segue que todos os médiuns sejam reveladores e ainda menos que sejam intermediários diretos da Divindade ou de seus mensageiros.

10. ─ Só os puros Espíritos recebem a palavra de Deus com a missão de retransmiti-la. Mas sabe-se agora que os Espíritos estão longe de ser todos perfeitos, e que há Espíritos que tomam falsas aparências. É isto que levou São João a dizer: “Não creiais em todo Espírito, mas vede antes se os Espíritos são de Deus.” (1ª Ep. Cap. IV, vers. 1)

Pode, pois, haver revelações sérias e verdadeiras, como há apócrifas e mentirosas. O caráter essencial da revelação divina é o da eterna verdade. Toda revelação manchada de erro ou sujeita a mudança não pode emanar de Deus. É assim que a lei do Decálogo tem todos os caracteres de sua origem, ao passo que as outras leis mosaicas, essencialmente transitórias, muitas vezes em contradição com a lei do Sinai, são obra pessoal e política do legislador hebreu. Abrandando-se os costumes do povo, essas leis por si mesmas caíram em desuso, ao passo que o Decálogo permaneceu de pé, como o farol da Humanidade. O Cristo dele fez a base de seu edifício, ao passo que aboliu as outras leis. Se estas tivessem sido obra de Deus, ele teria evitado tocá-las. O Cristo e Moisés são os dois grandes reveladores que mudaram a face do mundo, e aí está a prova de sua missão divina. Uma obra puramente humana não teria tal poder.

11. ─ Uma importante revelação se realiza na época atual. É a que nos mostra a possibilidade de nos comunicarmos com os seres do mundo espiritual. Esse conhecimento não é novo, sem dúvida, mas até os nossos dias tinha ficado, de certo modo, no estado de letra morta, isto é, sem proveito para a Humanidade. A ignorância das leis que regem essas relações as havia abafado sob a superstição; o homem era incapaz de retirar delas qualquer dedução salutar. Estava reservado à nossa época desembaraçá-la de seus acessórios ridículos, de compreender o seu alcance e de fazer jorrar a luz que devia iluminar os caminhos do futuro.

12. ─ Tendo o Espiritismo dado a conhecer o mundo invisível que nos cerca, em cujo meio vivemos sem nos darmos conta, as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e os estado dos seres que o habitam e, por conseguinte, o destino do homem após a morte, fez uma verdadeira revelação, na acepção científica do vocábulo.

13. ─ Por sua natureza, a revelação espírita tem um duplo caráter. Ela participa, ao mesmo tempo, da revelação divina e da revelação científica. Participa da primeira porque o seu surgimento é providencial, e não o resultado da iniciativa e de um desígnio premeditado do homem; porque os pontos fundamentais da Doutrina são o fato do ensino dado pelos Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens sobre coisas que estes ignoravam, que não podiam aprender por si mesmos e que hoje lhes importa conhecer, pois estão amadurecidos para compreendê-las. Participa da segunda porque esse ensino não é privilégio de nenhum indivíduo, mas é dado a todo mundo pela mesma via; porque os que o transmitem e os que o recebem não são seres passivos, dispensados do trabalho de observação e de pesquisa; porque eles não prescindem de seu raciocínio e de seu livre-arbítrio; porque o controle não lhes é interdito, mas, ao contrário, recomendado; enfim, porque a Doutrina não foi ditada peça por peça, nem imposta à crença cega; porque ela é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos põem sob os seus olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, e das quais ele próprio tira as consequências e as aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é que a sua fonte é divina; que a iniciativa pertence aos Espíritos e que a elaboração é produto do trabalho do homem.

14. ─ Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma maneira que as ciências positivas, isto é, aplica o método experimental. Apresentam-se fatos de uma ordem nova, que não podem ser explicados pelas leis conhecidas; ele os observa, compara-os, analisa-os, e dos efeitos remontando às causas, chega à lei que os rege, depois deduz as suas consequências e busca as suas aplicações úteis. Não estabelece qualquer teoria preconcebida. Assim, não apresentou como hipótese nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem nenhum dos princípios da Doutrina. Ele concluiu pela existência dos Espíritos quando essa existência ressaltou com evidência da observação dos fatos, e assim com os outros princípios. Não foram os fatos que vieram de súbito confirmar a teoria, mas a teoria que veio subsequentemente explicar e resumir os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer que o Espiritismo é uma ciência de observação e não o produto da imaginação.

15. ─ Citemos um exemplo. No mundo dos Espíritos passa-se um fato muito singular, e que seguramente ninguém teria suspeitado: é o de Espíritos que não se julgam mortos. Ora! Os Espíritos superiores, que sabem disso perfeitamente, não vieram dizer por antecipação: “Há Espíritos que ainda creem viver a vida terrena; que conservaram seus gostos, seus hábitos e seus instintos.” Mas provocaram a manifestação de Espíritos dessa categoria, para que os observássemos. Tendo, pois, visto Espíritos incertos de seu estado, ou afirmando que ainda estavam neste mundo e crendo entregar-se às suas ocupações ordinárias, do exemplo deduziu-se a regra. A multiplicidade de fatos análogos provou que não era uma exceção, mas uma das fases da vida espírita; permitiu estudar todas as variedades e as causas dessa singular ilusão; reconhecer que essa situação é própria, sobretudo dos Espíritos pouco adiantados moralmente, e que ela é particular a certos gêneros de morte; que é apenas temporária, mas pode durar dias, meses ou anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação. Deu-se o mesmo com todos os outros princípios da Doutrina.

16. ─ Assim como a Ciência propriamente dita tem por objetivo o estudo das leis do princípio material, o objetivo especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual. Ora, como este último princípio é uma das forças da Natureza, que ele reage incessantemente sobre o princípio material, e reciprocamente, daí resulta que o conhecimento de um não pode ser completo sem o conhecimento do outro; que o Espiritismo e a Ciência se completam mutuamente; que a Ciência sem o Espiritismo se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; que é por haver feito abstração do princípio espiritual que ela se deteve em tão numerosos impasses; que o Espiritismo sem a Ciência estaria sem apoio e controle e poderia acalentar ilusões. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas, teria sido uma obra abortada, como tudo quanto vem antes de seu tempo.

17. ─ Todas as ciências se encadeiam e se sucedem numa ordem racional. Elas nascem umas das outras, à medida que encontram um ponto de apoio nas ideias e conhecimentos anteriores. A Astronomia, uma das primeiras a ser cultivada, permaneceu nos erros da infância até o momento em que a Física veio revelar a lei das forças dos agentes naturais; nada podendo sem a Física, a Química devia sucedê-la de perto, para em seguida avançar lado a lado, apoiando-se uma na outra. A Anatomia, a Fisiologia, a Zoologia, a Botânica, a Mineralogia só se tornaram ciências sérias com o auxílio das luzes trazidas pela Física e pela Química. A Geologia, nascida ontem, sem a Astronomia, a Física, a Química e todas as outras, não teria tido os seus verdadeiros elementos de vitalidade, portanto, só poderia vir depois.

18. ─ A Ciência moderna fez justiça aos quatro elementos primitivos dos Antigos e, de observação em observação, chegou à concepção de um só elemento gerador de todas as transformações da matéria. Mas a matéria, por si mesma, é inerte; ela não tem vida nem pensamento nem sentimento; é-lhe necessária a união com o princípio espiritual. O Espiritismo não descobriu nem inventou esse princípio, mas foi o primeiro a demonstrá-lo por provas irrefutáveis; estudou-o, analisou-o e tornou evidente a sua ação. Ao elemento material veio juntar o elemento espiritual. Elemento material e elemento espiritual, eis, de agora em diante, os dois princípios, as duas forças vivas da Natureza. Pela união indissolúvel desses dois elementos, explica-se sem esforço uma porção de fatos até agora inexplicáveis.

Por sua própria essência, e como tendo por objetivo o estudo de um dos dois elementos constitutivos do Universo, o Espiritismo forçosamente toca na maior parte das ciências. Ele não podia vir senão após a elaboração dessas ciências, e sobretudo depois que elas tivessem provado sua impossibilidade de tudo explicar só pelas leis da matéria.

19. ─ Acusam o Espiritismo de aparentado com a magia e a feitiçaria; mas esquecem que a Astronomia tem como irmã mais velha a astrologia judiciária, que não está tão afastada de nós; que a Química é filha da Alquimia, da qual nenhum homem sensato hoje ousaria ocupar-se. Contudo, ninguém nega que na Astrologia e na Alquimia havia o germe das verdades de onde saíram as ciências atuais. A despeito de suas fórmulas ridículas, a Alquimia pôs no caminho dos corpos simples e da lei das afinidades; a Astrologia se apoiava na posição e no movimento dos astros que ela havia estudado. Mas, na ignorância das verdadeiras leis que regem o mecanismo do Universo, os astros eram para o vulgo seres misteriosos, aos quais a superstição emprestava uma influência moral e um sentido revelador. Quando Galileu, Newton, Kepler deram a conhecer essas leis; quando o telescópio rasgou o véu e mergulhou nas profundezas do espaço um olhar que certas pessoas acharam indiscreto, os planetas nos apareceram como simples mundos semelhantes ao nosso, e se esboroaram todos os andaimes do maravilhoso.

Dá-se o mesmo com o Espiritismo em relação à magia e à feitiçaria. Estas também se apoiavam na manifestação dos Espíritos, como a Astrologia no movimento dos astros; mas, na ignorância das leis que regem o mundo espiritual, a essas relações elas misturavam práticas e crenças ridículas, às quais faz justiça o Espiritismo moderno, fruto da experiência e da observação. Seguramente, a distância que separa o Espiritismo da magia e da feitiçaria é maior que a que existe entre a Astronomia e a Astrologia, a Química e a Alquimia. Querer confundi-las é provar que se ignora o á-bê-cê.

20. ─ Só o fato da possibilidade de comunicação com os seres do mundo espiritual tem consequências incalculáveis, da mais alta importância. É todo um mundo novo que se nos revela e que tem tanto mais importância pelo fato de atingir todos os homens, sem exceção. Esse conhecimento não pode deixar de trazer, generalizando-se, uma profunda modificação nos costumes, no caráter, nos hábitos e nas crenças que têm tamanha influência nas relações sociais. É toda uma revolução que se opera nas ideias, revolução tanto maior e mais poderosa porque não fica circunscrita a um povo, a uma casta, mas, pelo coração, atinge todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos.

É, pois, com razão que o Espiritismo é considerado como a terceira grande revelação. Vejamos em que elas diferem e por quais laços elas se ligam uma à outra.

21. ─ Como profeta, Moisés revelou aos homens o conhecimento de um Deus único, soberano senhor e criador de todas as coisas; ele promulgou a lei do Sinai e lançou os fundamentos da verdadeira fé; como homem, foi o legislador do povo, pelo qual essa fé primitiva, depurando-se, devia um dia espalhar-se por toda a Terra.

22. ─ O Cristo, tomando da antiga lei o que é eterno e divino, rejeitando o que apenas era transitório, puramente disciplinar e de concepção humana, acrescentou à revelação da vida futura, da qual Moisés não havia falado, a das penas e recompensas que esperam o homem depois da morte (Vide Revista Espírita de 1861).

23. ─ A parte mais importante da revelação do Cristo, no sentido que ela é a fonte primeira, a pedra angular de toda a sua doutrina, é o ponto de vista inteiramente novo, sob o qual ele faz encarar a Divindade. Não é mais o Deus terrível, ciumento e vingativo de Moisés, o Deus cruel e impiedoso que rega a Terra com o sangue humano; que ordena o massacre e o extermínio dos povos, sem excetuar as mulheres, as crianças e os velhos; que castiga os que poupam as vítimas; não é mais o Deus injusto que pune todo um povo pela falta de seu chefe; que se vinga do culpado na pessoa do inocente; que fere os filhos pela falta de seus pais, mas um Deus clemente, soberanamente bom e justo, cheio de mansuetude e de misericórdia, que perdoa o pecador arrependido e dá a cada um segundo as suas obras; não é mais o Deus de um só povo privilegiado, o Deus dos exércitos que preside os combates para sustentar a sua própria causa contra o Deus dos outros povos, mas o pai comum do gênero humano, que estende a sua proteção a todos os seus filhos e os chama todos a si; não é mais o Deus que recompensa e castiga apenas com os bens terrenos; que faz consistir a glória e a felicidade na escravização dos povos rivais e na multiplicidade da progenitura, mas que diz aos homens: “Vossa verdadeira pátria não é neste mundo, é no reino celeste; é lá que os humildes de coração serão elevados e os orgulhosos rebaixados.” Não é mais o Deus que faz da vingança uma virtude e que determina retribuir olho por olho e dente por dente, mas o Deus de misericórdia que diz: “Perdoai as ofensas, se quiserdes ser perdoados; fazei o bem pelo mal; não façais a outrem o que não quereis que vos façam.” Não é mais o Deus mesquinho e meticuloso que impõe, sob as mais rigorosas penas, a maneira pela qual quer ser adorado; que se ofende com a inobservância de uma fórmula, mas o Deus grande, que olha o pensamento e não se honra com a forma; enfim não é mais o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado.

24. ─ Sendo Deus o centro de todas as crenças religiosas, o objetivo de todos os cultos, o caráter de todas as religiões é conforme à ideia que elas dão de Deus. As que dele fazem um Deus vingativo e cruel, creem honrá-lo por atos de crueldade, pelas fogueiras e pelas torturas; as que dele fazem um Deus parcial e ciumento, são intolerantes; são mais ou menos meticulosas na forma, segundo o creem mais ou menos maculado pelas fraquezas e pequenezas humanas.

25. ─ Toda a doutrina do Cristo está fundada no caráter que ele atribui à Divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, ele pôde fazer do amor a Deus e da caridade para com o próximo a condição expressa da salvação, e dizer: estão toda a lei e os profetas, e não há outra. Apenas sobre essa crença ele pôde assentar o princípio da igualdade dos homens perante Deus, e da fraternidade universal.

Essa revelação dos verdadeiros atributos da Divindade, acrescida pela da imortalidade da alma e da vida futura, modificava profundamente as relações mútuas dos homens, impondo-lhes novas obrigações, fazendo-os encarar a vida presente sob uma outra luz. Era, por isto mesmo, toda uma revolução nas ideias, revolução que forçosamente devia reagir sobre os costumes e as relações sociais. Por suas consequências, é incontestavelmente o mais importante ponto da revelação do Cristo, cuja importância ainda não foi suficientemente compreendida. É lamentável dizê-lo, mas é também aquele do qual mais se afastavam, que mais foi desconhecido na interpretação de seus ensinamentos.

26. ─ Contudo, o Cristo acrescenta: Muitas das coisas que vos digo não podeis compreender agora, e eu teria muitas outras a vos dizer que não compreenderíeis. É por isso que vos falo por parábolas, porém, mais tarde eu vos enviarei o Consolador, o Espírito de Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas.

Se o Cristo não disse tudo o que poderia ter dito, é que ele julgou que deveria deixar certas verdades na sombra, até que os homens estivessem em condições de compreendê-las. Por sua confissão, seu ensino, então, era incompleto, porquanto ele anuncia a vinda daquele que deve completá-la. Assim, ele previa que se enganassem quanto às suas palavras; que desviassem o seu ensino; numa palavra, que desfizessem o que ele havia feito, pois todas as coisas devem ser restabelecidas. Ora, só se restabelece o que foi desfeito.

27. ─ Por que chama ele o novo messias Consolador? Este nome significativo e sem ambiguidade é toda uma revelação. Ele previa, portanto, que os homens necessitariam de consolações, o que implica a insuficiência das que eles encontrariam na crença que iam adquirir. Talvez jamais o Cristo tenha sido mais claro e mais explícito do que nestas últimas palavras, às quais poucas pessoas prestaram atenção, talvez porque tivessem evitado trazê-las à luz e aprofundar o seu sentido profético.

28. ─ Se o Cristo não pôde desenvolver o seu ensino de maneira completa, é que faltavam aos homens conhecimentos que só com o tempo poderiam adquirir, e sem os quais eles não podiam compreendê-lo. Há coisas que teriam parecido insensatas, no estado dos conhecimentos de então. Completar, pois, o seu ensino deve entender-se no sentido de explicar e desenvolver, muito mais do que no de acrescentar verdades novas, porque ali tudo se encontra em germe. Faltava a chave para compreender o sentido de suas palavras.

29. ─ Mas quem ousa permitir-se interpretar as Escrituras Sagradas? Quem tem esse direito? Quem possui as luzes necessárias senão os teólogos? Quem o ousa? Para começar, a Ciência, que a ninguém pede permissão para dar a conhecer as leis da Natureza, e pula por cima dos erros e preconceitos. ─ Quem tem esse direito? No século da emancipação intelectual e de liberdade de consciência, o direito de exame pertence a todos, e as Escrituras não mais são a Arca da Aliança na qual ninguém ousa tocar sem arriscar-se a ser fulminado. Quanto às luzes especiais necessárias, sem contestar as dos teólogos e, por mais esclarecidos que estes fossem na Idade Média, e em particular os Pais da Igreja, eles contudo ainda não o eram bastante para não condenar como heresias o movimento da Terra e a crença nos antípodas; e sem ir tão longe, os dos nossos dias não lançaram anátema aos períodos da formação da Terra?

Os homens não puderam explicar as Escrituras senão com o auxílio do que sabiam, das noções falsas ou incompletas que tinham sobre as leis da Natureza, mais tarde reveladas pela Ciência. Eis por que os próprios teólogos puderam, de muito boa-fé, equivocar-se quanto ao sentido de certas palavras e de certos fatos do Evangelho. Querendo a todo custo aí encontrar a confirmação de um pensamento preconcebido, andavam sempre em círculo, sem deixar seu ponto de vista, de tal sorte que aí só viam o que queriam ver. Por mais sábios que fossem esses teólogos, não podiam compreender as causas que dependem de leis que eles desconheciam.

Mas quem será juiz das interpretações diversas e muitas vezes contraditórias dadas fora da teologia? ─ O futuro, a lógica e o bom-senso. Os homens, cada vez mais esclarecidos, à medida que novos fatos e novas leis vierem revelar-se, saberão separar os sistemas utópicos da realidade. Ora, a Ciência dá a conhecer certas leis; o Espiritismo revela outras; umas e outras são indispensáveis à inteligência dos textos sagrados de todas as religiões, desde Confúcio e Buda até o Cristianismo. Quanto à Teologia, ela não poderia judiciosamente alegar contradições da Ciência, quando nem sempre está de acordo consigo mesma.

30. ─ Partindo o Espiritismo das próprias palavras do Cristo, assim como o Cristo partiu das palavras de Moisés, ele é uma consequência direta de sua doutrina.

À ideia vaga da vida futura, ele alia a revelação da existência do mundo invisível que nos rodeia e povoa o espaço, e a partir daí precisa a crença; dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade no pensamento.

Ele define os laços que unem alma e corpo, e ergue o véu que ocultava aos homens os mistérios do nascimento e da morte. Para o Espiritismo, o homem sabe de onde vem, para onde vai, por que está na Terra, por que aí sofre temporariamente, e por toda parte vê a justiça de Deus.

Ele sabe que a alma progride sem cessar através de uma série existências sucessivas, até que tenha atingido o grau de perfeição que pode aproximá-la de Deus.

Sabe que todas as almas, tendo o mesmo ponto de partida, são criadas iguais, com uma mesma aptidão para progredir, em virtude de seu livre-arbítrio; que todas são da mesma essência, e que entre elas há apenas a diferença do progresso realizado; que todas têm o mesmo destino e atingirão o mesmo objetivo, mais ou menos rapidamente, conforme seu trabalho e sua boa vontade.

Ele sabe que não há criaturas deserdadas, nem mais favorecidas umas que as outras; que Deus não criou umas privilegiadas e dispensadas do trabalho imposto a outras para progredir; que não há seres perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que aqueles designados sob o nome de demônios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos, que fazem o mal no estado de Espíritos, como o faziam no estado de homens, mas que progredirão e melhorarão; que os anjos ou puros Espíritos não são seres à parte na criação, mas Espíritos que atingiram o objetivo, depois de haverem seguido a fieira do progresso; que assim, não há criações múltiplas de diferentes classes entre os seres inteligentes, mas que toda a criação surge da grande lei de unidade que rege o Universo, e que todos os seres gravitam para um fim comum, que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos à custa de outros, pois todos são filhos de suas próprias obras.

31. ─ Pelas relações que agora o homem pode estabelecer com os que deixaram a Terra, há não só a prova material da existência e da individualidade da alma, mas ele compreende a solidariedade que liga os vivos e os mortos deste mundo e os deste mundo com os de outros mundos. Ele conhece a sua situação no mundo dos Espíritos; segue-os nas suas migrações; é testemunha de suas alegrias e de suas penas; sabe por que são felizes ou infelizes, e a sorte que o espera, conforme o bem ou o mal que haja feito. Essas relações o iniciam à vida futura, que ele pode observar em todas as suas fases, em todas as suas peripécias; o futuro não é mais uma vaga esperança: é um fato positivo, uma certeza matemática. Então a morte nada mais tem de apavorante, porque é para ele a libertação, a porta da verdadeira vida.

32. ─ Pelo estudo da situação dos Espíritos, o homem sabe que a felicidade e a infelicidade na vida espiritual são inerentes ao grau de perfeição e de imperfeição; que cada um sofre as consequências diretas e naturais de suas falhas, isto é, que é punido por onde pecou; que essas consequências duram tanto quanto a causa que as produziu; que, assim, o culpado sofreria eternamente, se eternamente persistisse no mal, mas que o sofrimento cessa com o arrependimento e a reparação. Ora, como depende de cada um se melhorar, cada um pode, em virtude de seu livre-arbítrio, prolongar ou abreviar os seus sofrimentos, como o doente sofre por seus excessos até que neles ponha um termo.

33. ─ Se a razão repele, como incompatível com a bondade de Deus, a ideia das penas irremissíveis, perpétuas e absolutas, muitas vezes infligidas por uma única falta; os suplícios do inferno, que não podem ser abrandados pelo mais ardente e pelo mais sincero arrependimento, ela se inclina ante essa justiça distributiva e imparcial que tudo leva em conta; que jamais fecha a porta de retorno e incessantemente estende a mão ao náufrago, em vez de empurrá-lo para o abismo.

34. ─ A pluralidade das existências, cujo princípio o Cristo estabeleceu no Evangelho, embora sem defini-lo mais que muitos outros, é uma das mais importantes leis reveladas pelo Espiritismo, no sentido em que demonstra a sua realidade e a sua necessidade para o progresso. Por essa lei, o homem compreende todas as aparentes anomalias que apresenta a vida humana; as diferenças de posição social; as mortes prematuras que, sem a reencarnação, tornariam inúteis para a alma as vidas abreviadas; a desigualdade das aptidões intelectuais e morais, pela ancianidade do Espírito, que viveu mais ou menos, mais ou menos aprendeu e progrediu, e que, renascendo, traz o que adquiriu nas vidas anteriores. (Nº 5)

35. ─ Com a doutrina da criação da alma em cada nascimento, cai-se no sistema das criações privilegiadas: Os homens são estranhos uns aos outros; nada os une, e os laços de família são puramente carnais. Eles não são solidários de um passado em que não existiam. Com o do nada após a morte, toda relação cessa com a vida; eles não são solidários no futuro. Pela reencarnação, eles são solidários no passado e no futuro. Perpetuando-se as suas relações no mundo espiritual e no mundo corporal, a fraternidade tem por base as próprias leis da Natureza; o bem tem um objetivo, o mal as suas inevitáveis consequências.

36. ─ Com a reencarnação caem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, nobre ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravatura, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, não há nenhum que supere em lógica o fato material da reencarnação. Se, pois, a reencarnação funda sobre uma lei da Natureza o princípio da fraternidade universal, funda sobre a mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por consequência, o da liberdade.

Os homens não nascem inferiores e subordinados senão pelo corpo; pelo Espírito eles são iguais e livres. Daí o dever de tratar os inferiores com bondade, benevolência e humanidade, porque aquele que é nosso subordinado hoje pode ter sido nosso igual ou nosso superior, talvez um parente ou um amigo, e que, por nossa vez, poderemos vir a ser subordinado daquele a quem comandamos.

37. ─ Tirai do homem o espírito livre, independente, sobrevivente à matéria, e dele fazeis uma máquina organizada, sem objetivo, sem responsabilidade, sem outro freio senão a lei civil, e boa de explorar como um animal inteligente. Nada esperando após a morte, nada o detém para aumentar os prazeres do presente; se sofre, não tem em perspectiva senão o desespero e o nada como refúgio. Com a certeza do futuro, a de reencontrar aqueles a quem amou, o medo de rever aqueles a quem ofendeu, todas as suas ideias mudam. Se o Espiritismo não tivesse feito senão tirar o homem da dúvida em relação à vida futura, teria feito mais por seu melhoramento moral do que todas as leis disciplinares que por vezes o contêm, mas não a transformam.

38. ─ Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não só é inconciliável com a justiça de Deus, que tornaria todos os homens responsáveis pela falta de um só, ela seria uma insensatez muito menos justificável porque a alma não existia na época à qual se pretende fazer remontar a sua responsabilidade. Com a preexistência e a reencarnação, ao nascer o homem traz o germe de suas passadas imperfeições, dos defeitos de que não se corrigiu, que se traduzem por seus instintos inatos suas propensões para tal ou qual vício. Aí está o seu verdadeiro pecado original, do qual naturalmente sofre todas as consequências, mas com a diferença capital que sofre a pena de suas próprias faltas e não a da falta de outrem; e esta outra diferença, ao mesmo tempo consoladora, encorajadora e soberanamente equi­tável, que cada existência lhe oferece os meios de se resgatar pela reparação e de progredir, quer se despojando de alguma imperfeição, quer adquirindo novos conhecimentos, e isto até que se tendo purificado suficientemente, não mais necessite da vida corporal e possa viver exclusivamente a vida espiritual, eterna e bem-aventurada.

Pela mesma razão, aquele que progrediu moralmente traz, ao renascer, qualidades inatas, assim como aquele que progrediu intelectualmente traz ideias inatas; ele está identificado com o bem; pratica-o sem esforço, sem cálculo e, por assim dizer, sem pensar. Aquele que é obrigado a combater as suas más tendências, ainda está na luta; o primeiro já venceu, o segundo está a caminho de vencer. A mesma causa produz o pecado original e a virtude original.

39. ─ O Espiritismo experimental estudou as propriedades dos fluidos espirituais e sua ação sobre a matéria. Demonstrou a existência do perispírito, suspeitado desde a Antiguidade, e designado por São Paulo sob o nome de Corpo Espiritual, isto é, corpo fluídico da alma após a destruição do corpo tangível. Sabe-se hoje que esse envoltório é inseparável da alma; que é um dos elementos constitutivos do ser humano; que é o veículo de transmissão do pensamento e que, durante a vida do corpo, serve de ligação entre o Espírito e a matéria. O perispírito exerce um papel importante no organismo e numa porção de afecções, pelo que ele se liga tanto à Fisiologia quanto à Psicologia.

40. ─ O estudo das propriedades do perispírito, dos fluidos espirituais e dos atributos fisiológicos da alma, abre novos horizontes à Ciência, e dá a chave de uma porção de fenômenos até agora incompreendidos por falta do conhecimento da lei que os rege, fenômenos negados pelo materialismo, porque se ligam à espiritualidade, qualificados por outros de milagres ou sortilégios, conforme as crenças. Tais são, entre outros, os fenômenos da dupla vista, da visão à distância, do sonambulismo natural e artificial, dos efeitos psíquicos de catalepsia e da letargia, da presciência, dos pressentimentos, das aparições, das transfigurações, da transmissão do pensamento, da fascinação, das curas instantâneas, das obsessões e possessões, etc. Demonstrando que esses fenômenos repousam em leis tão naturais quanto os fenômenos elétricos, bem como as condições normais em que se podem reproduzir, o Espiritismo destrói o império do maravilhoso e do sobrenatural e, por conseguinte, a fonte da maior parte das superstições. Se enseja a crença na possibilidade de certas coisas vistas por alguns como quiméricas, ele impede a crença em muitas outras, demonstrando a sua impossibilidade e a sua irracionalidade.

41. ─ Longe de negar ou destruir o Evangelho, o Espiritismo vem, ao contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da Natureza que ele revela, tudo quanto o Cristo disse e fez; projeta luz sobre pontos obscuros de seu ensino, de tal modo que aqueles para os quais certas partes do Evangelho eram ininteligíveis, ou pareciam inadmissíveis, as compreendem sem esforço com o auxílio do Espiritismo, e as admitem. Eles veem melhor o seu alcance e podem separar a realidade da alegoria. O Cristo lhes parece maior, porque não é mais um simples filósofo, mas um Messias divino.

42. ─ Se considerarmos, além disso, o poder moralizador do Espiritismo, pelo fim que ele assinala a todas as ações da vida, pelas consequências do bem e do mal que ele torna palpáveis; a força moral, a coragem, as consolações que ele dá nas aflições por uma inalterável confiança no futuro, pelo pensamento de ter perto de si os seres que foram amados, pela segurança de revê-los, pela possibilidade de comunicar-se com eles, enfim, pela certeza que de tudo quanto se faz, de tudo quanto se adquire em inteligência, em ciência, em moralidade, até a última hora da vida, nada fica perdido; que tudo concorre para o adiantamento, reconhecer-se-á que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa de seu advento se acha realizada, porque, de fato, ele é o verdadeiro Consolador[2]

43. ─ Se a esses resultados acrescentarmos a incrível rapidez da propagação do Espiritismo, malgrado tudo quanto têm feito para abatê-lo, não se pode discordar que sua vinda seja providencial, porquanto ele triunfa de todas as forças e de toda má vontade humana. A facilidade com a qual é aceito por tão grande número, e isto sem constrangimento e sem outros recursos além do poder da ideia, prova que ele corresponde a uma necessidade: a de crer, depois do vazio cavado pela incredulidade e que, consequentemente, veio no devido tempo.

44. ─ Os aflitos são em grande número, portanto, não é surpreendente que tanta gente acolha uma doutrina que consola, de preferência às que desesperam, porque é aos deserdados, mais que aos felizes do mundo, que se dirige o Espiritismo. O doente vê chegar o médico com mais alegria que aquele que passa bem. Ora, os aflitos são doentes e o Consolador é o médico.

Vós que combateis o Espiritismo, se quiserdes que as pessoas o deixem para seguir-vos, dai mais e melhor do que ele; curai mais seguramente as feridas da alma; fazei como o negociante que, para lutar contra um concorrente, dá mercadoria de melhor qualidade e a menor preço. Dai, pois, mais consolações, mais satisfações do coração, esperanças mais legítimas, certezas maiores; fazei do futuro um quadro mais racional mais sedutor, mas não penseis em vencê-lo com o perspectiva do nada, com a alternativa das chamas do inferno ou da beata e inútil contemplação perpétua. Que diríeis do negociante que chamasse de loucos todos os fregueses que não querem sua mercadoria e vão ao vizinho? Fazeis o mesmo taxando de loucura e inépcia todos os que não querem vossas doutrinas que eles cometem o erro de não achar de seu gosto.[3]

 

45. ─ A primeira revelação era personificada em Moisés, a segunda no Cristo, a terceira não é em nenhum indivíduo. As duas primeiras são individuais, a terceira é coletiva; eis um caráter essencial de grande importância. Ela é coletiva no sentido que não foi feita por privilégio a ninguém; que ninguém, consequentemente, pode dizer-se seu profeta exclusivo. Ela foi feita simultaneamente em toda a Terra, a milhões de pessoas de todas as idades, de todos os tempos e de todas as condições sociais, desde o primeiro até o último degrau da escada, segundo esta predição exarada pelo autor dos Atos dos Apóstolos: “Nos últimos tempos, diz o Senhor, eu espalharei o meu espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos moços terão visões e vossos velhos terão sonhos.” Ela não saiu de nenhum culto especial, a fim de servir um dia a todos de ponto de ligação.[4]

46. ─ Sendo as duas primeiras revelações produto de um ensinamento pessoal, forçosamente foram localizadas, isto é, ocorreram num só ponto, em torno do qual a ideia se espalhou pouco a pouco. Mas foram precisos muitos séculos para que atingissem as extremidades do mundo, sem invadi-lo inteiramente. A terceira tem de particular que, não estando personificada num indivíduo, produziu-se simultaneamente em milhares de pontos diversos, os quais se tornaram centros ou focos de irradiação. Multiplicando-se esses centros, seus raios se encontram pouco a pouco, como os círculos formados por uma porção de pedras atiradas na água, de tal sorte que, num dado tempo, acabarão cobrindo toda a superfície do globo.

Tal é uma das causas da rápida propagação da doutrina. Se ela tivesse surgido num só ponto, se tivesse sido obra exclusiva de um homem, teria formado uma seita em seu redor. Talvez mais de meio século tivesse decorrido antes que ela tivesse atingido os limites do país onde surgiu, ao passo que em dez anos ela tem balizas plantadas de um pólo ao outro.

47. ─ Essa circunstância singular na história das doutrinas dá a esta uma força excepcional e um poder de ação irresistível. Com efeito, se a reprimirem num ponto, num país, é materialmente impossível reprimi-la em todos os pontos, em todos os países. Para um lugar onde for entravada, haverá mil ao lado onde ela florescerá. Ainda mais, se a atingirem num indivíduo, não poderão atingi-la nos Espíritos, que são a sua fonte. Ora, como os Espíritos estão em toda parte e sempre existirão, se,─ o que nos parece impossível ─ chegassem a abafá-la em todo o globo, ela reapareceria algum tempo depois, porque repousa sobre um fato, e esse fato está na Natureza e não se podem suprimir as leis da Natureza. Eis de que se devem persuadir os que sonham com o aniquilamento do Espiritismo. (Revista Espírita, fevereiro de 1865: Perpetuidade do Espiritismo).

48. ─ Entretanto, esses centros disseminados poderiam ter ficado ainda muito tempo isolados uns dos outros, já que alguns são confinados em regiões distantes. Era preciso entre eles um traço de união que os pusesse em comunhão de pensamentos com seus irmãos em crença, ensinando-lhes o que se fazia alhures. Esse traço de união, que teria faltado ao Espiritismo na Antiguidade, acha-se nas publicações que vão a toda parte, que condensam, sob uma forma única, concisa e metódica, o ensinamento dado em toda parte sob formas múltiplas e em línguas diversas.

49. ─ As duas primeiras revelações não podiam ser senão o resultado de um ensino direto; deviam impor-se à fé pela autoridade da palavra do mestre, pois os homens não eram bastante adiantados para participarem da sua elaboração.

Contudo, notemos entre elas uma nuança muito palpável, que diz respeito ao progresso dos costumes e das ideias, embora tenham sido feitas no mesmo povo e no mesmo meio, mas com cerca de dezoito séculos de intervalo. A doutrina de Moisés é absoluta, despótica; não admite discussão e se impõe a todo o povo pela força. A de Jesus é essencialmente conselheira; é aceita, livremente e não se impõe senão pela persuasão; é controvertida ainda em vida de seu fundador, que não se recusava a discutir com os adversários.

50. ─ A terceira revelação veio numa época de emancipação e de maturidade intelectual, em que a inteligência desenvolvida não se pode reduzir a um papel passivo, em que o homem nada aceita cegamente, mas quer ver aonde o conduzem, saber por que e como se dá cada coisa; devia ser, ao mesmo tempo, o produto de um ensino e o fruto do trabalho, da pesquisa e do livre exame. Os Espíritos só ensinam precisamente o que é necessário para trilhar o caminho da verdade, mas se abstêm de revelar o que o homem pode descobrir por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, de controlar e de submeter tudo ao cadinho da razão, muitas vezes até o deixando adquirir a experiência à própria custa. Eles lhe dão o princípio, os materiais, cabendo-lhe deles tirar proveito e pô-los à obra (nº 15).

51. ─ Tendo os elementos da revelação espírita sido dados simultaneamente numa porção de lugares, a homens de todas as condições sociais e de diversos graus de instrução, é bem evidente que as observações não podiam ser feitas em toda parte com os mesmos resultados; que as consequências a delas tirar, a dedução das leis que regem essa ordem de fenômenos, numa palavra, a conclusão que devia assentar as ideias, não podiam sair senão do conjunto e da correlação dos fatos. Ora, cada centro isolado, circunscrito num círculo restrito, o mais das vezes não vendo senão uma ordem particular de fatos por vezes aparentemente contraditórios, geralmente não tratando senão com uma mesma categoria de Espíritos e além disso entravado pelas influências locais e pelo espírito de partido, achava-se na impossibilidade material de abarcar o conjunto e, por isso mesmo, impotente para ligar as observações isoladas a um princípio comum. Cada um apreciando os fatos do ponto de vista de seus conhecimentos e de suas crenças anteriores, ou da opinião particular dos Espíritos que se manifestam, em breve haveria tantas teorias e sistema quantos centros, dos quais nenhum poderia ter sido completo, por falta de elementos de comparação e de controle.

52. ─ É de notar, ainda, que em parte alguma o ensinamento espírita foi dado de maneira completa. Ele compreende tão grande nú­mero de observações, em assuntos tão diversos que tanto exigem conhecimentos quanto aptidões mediúnicas especiais, que teria sido impossível reunir num mesmo ponto todas as condições necessárias. Devendo o ensinamento ser coletivo e não individual, os Espíritos dividiram o trabalho disseminando os assuntos de estudo e de observação, como em certas fábricas a confecção de cada parte de um mesmo objeto é repartida entre diferentes operários.

Assim, a revelação se fez parcialmente, em diversos lugares e por uma multidão de intermediários, e é desta maneira que prossegue, ainda neste momento, porque nem tudo está revelado. Cada centro encontra nos outros centros o complemento do que recebe, e é o conjunto, a coordenação de todos os ensinamentos parciais que constituíram a Doutrina Espírita.

Era, pois, necessário agrupar os fatos esparsos para ter a sua correlação; reunir os documentos diversos, as instruções fornecidas pelos Espíritos em todos os lugares e sobre todos os assuntos, para compará-los, analisá-los, estudar as suas analogias e as suas diferenças. Sendo as comunicações dadas por Espíritos de todas as ordens, mais ou menos esclarecidos, era necessário apreciar o grau de confiança que a razão permitia conceder-lhes; distinguir as ideias sistemáticas individuais e isoladas das que tinham a sanção do ensino geral dos Espíritos, as utopias das ideias práticas; eliminar as que eram notoriamente desmentidas pelos dados da ciência positiva e da sadia lógica; utilizar os próprios erros, as informações fornecidas por Espíritos, mesmo da mais baixa categoria, para o conhecimento do estado do mundo invisível, e disso formar um todo homogêneo. Numa palavra, era preciso um centro de elaboração, independente de toda ideia preconcebida, de todo preconceito de seita, resolvido a aceitar a verdade tornada evidente, ainda que fosse contrária às suas opiniões pessoais. Tal centro formou-se por si mesmo, pela força das coisas, e sem desígnio premeditado.[5]

53. ─ Desse estado de coisas resultou uma dupla corrente de ideias: umas indo das extremidades para o centro, outras retornando do centro para as extremidades. Foi assim que a doutrina marchou rapidamente para a unidade, malgrado a diversidade das fontes de onde ela emanou; que os sistemas divergentes caíram pouco a pouco, em razão do seu isolamento, ante o ascendente da opinião da maioria, por não encontrar aí ecos simpáticos. Desde então estabeleceu-se entre os vários centros parciais uma comunhão de pensamentos; falando a mesma linguagem espiritual, eles se compreendem e simpatizam de um extremo ao outro do mundo.

Os espíritas acharam-se mais fortes, lutaram com mais coragem e marcharam com passo mais firme, quando não mais se viram isolados, quando sentiram um ponto de apoio, um elo que os ligava à grande família. Os fenômenos que testemunhavam já lhes não pareceram estranhos, anormais, contraditórios, quando os puderam ligar às leis gerais de harmonia, abarcar de um golpe de vista o edifício, e ver em todo esse conjunto um objetivo grande e humanitário[6].

54. ─ Não há qualquer ciência que tenha saído com todas as peças do cérebro de um homem. Todas, sem exceção, são o produto de observações sucessivas apoiando-se em observações precedentes, como num ponto conhecido para chegar ao desconhecido. Foi assim que os Espíritos procederam para com o Espiritismo. Eis por que o seu ensino é graduado. Eles não abordam as questões senão à medida que os princípios sobre os quais elas devem apoiar-se estejam suficientemente elaborados, e que a opinião esteja madura para assimilá-los. É mesmo notável que todas as vezes que os centros particulares quiseram abordar questões prematuras, só obtiveram respostas contraditórias não concludentes. Quando, ao contrário, chega o momento favorável, o ensinamento é idêntico em toda a linha, na quase universalidade dos centros. Contudo, entre a marcha do Espiritismo e a das ciências há uma diferença capital: é que estas não atingiram o ponto onde chegaram senão depois de longos intervalos, ao passo que ao Espiritismo bastaram apenas alguns anos, senão para atingir o ponto culminante, ao menos para recolher uma soma bastante grande de observações próprias para constituir uma doutrina. Isto se deve à inumerável multidão de Espíritos que, pela vontade de Deus, se manifestaram simultaneamente, trazendo cada um o contingente de seus conhecimentos. Disso resultou que todas as partes da doutrina, em vez de serem elaboradas sucessivamente durante vários séculos, o foram mais ou menos simultaneamente em alguns anos e que bastou agrupá-las para que formassem um todo.

Quis Deus que assim fosse, primeiro para que o edifício chegasse mais rapidamente à cumeeira; em segundo lugar, para que pudéssemos, pela comparação, ter um controle por assim dizer imediato e permanente na universalidade do ensino, cada parte só tendo valor e autoridade pela conexão com o conjunto, devendo todas harmonizar-se e cada uma chegar a seu tempo e ao seu lugar. Não confiando a um só Espírito o cuidado da promulgação da doutrina, ele quis, além disso, que o menor, como o maior, entre os Espíritos como entre os homens, trouxesse sua pedra ao edifício, a fim de estabelecer entre eles o laço de solidariedade cooperativa que faltou a todas as doutrinas que saíram de uma fonte única.

Por outro lado, cada Espírito, assim como cada homem, tendo apenas uma soma limitada de conhecimentos, eram individualmente inábeis para tratar ex-professo das inumeráveis questões que o Espiritismo abrange. Eis, igualmente por que a Doutrina, para cumprir os desígnios do Criador, não podia ser obra nem de um só Espírito nem de um só médium; não podia sair senão da coletividade dos trabalhos controlados uns pelos outros. (Vide O Evangelho segundo o Espiritismo, introdução, parte VI e Revista Espírita de abril de 1864: Autoridade da Doutrina Espírita; controle universal do ensino dos Espíritos).

55. ─ Um último caráter da revelação espírita, e que ressalta das próprias condições em que ela é feita, é que, apoiando-se nos fatos, ela é, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Por sua essência, ela contrai aliança com a Ciência que, sendo a exposição das leis da Natureza numa certa ordem de fatos, não pode ser contrária à vontade de Deus, o autor dessas leis. As descobertas da Ciência glorificam Deus em vez de rebaixá-lo; elas não destroem senão o que os homens construíram sobre as ideias falsas que fizeram de Deus.

O Espiritismo, portanto, não estabelece como princípio absoluto senão o que é demonstrado com evidência, ou o que ressalta logicamente da observação. Abrangendo todos os ramos da economia social, aos quais dá o apoio de suas próprias descobertas, ele assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, sejam de que ordem forem, que tenham atingido o status de verdades práticas e que tenham saído do domínio da utopia, sem o que ele suicidar-se-ia. Deixando de ser o que é, ele mentiria à sua origem e ao seu objetivo providencial. Marchando com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque se novas descobertas lhe demonstrassem que está laborando em erro num ponto, modificar-se-ia nesse ponto; se uma nova verdade se revela, ela a aceita[7].

 

 



[1] Este artigo é extraído de uma nova obra que neste momento se acha no prelo e que aparecerá antes do fim do ano. Uma razão de oportunidade nos levou a publicar este extrato por antecipação na Revista. Malgrado sua extensão, julgamos dever inseri-lo de uma vez, para não interromper o encadeamento das ideias. A obra inteira terá o mesmo formato e o mesmo volume de Céu e Inferno.

[2] Muitos pais de família deploram a morte prematura de filhos por cuja educação fizeram muitos sacrifícios e dizem que foi tudo tempo perdido. Com o Espiritismo, eles não lamentam tais sacrifícios, e estariam prontos a fazê-los, mesmo com a certeza de verem morrer os filhos, porque sabem que se estes não tiram proveito dessa educação no presente, ela servirá ao seu avanço como Espíritos, pois será uma aquisição para uma nova existência, e que quando eles voltarem, terão uma bagagem intelectual que os tornará mais aptos para adquirir novos conhecimentos. Tais são essas crianças que ao nascerem trazem ideias inatas, e que sabem, por assim dizer, sem terem tido necessidade de aprender. Se, como pais, eles não têm a satisfação imediata de ver seus filhos tirarem proveito dessa educação, certamente dela gozarão mais tarde, quer como Espíritos, quer como homens. Talvez sejam novamente os pais desses mesmos filhos que são vistos como dotados pela Natureza, e que devem suas aptidões a uma precedente educação; como também, se esses filhos se tornam maus por força da negligência de seus pais, estes poderão ter que sofrer mais tarde, pelos aborrecimentos e desgostos que esses mesmos filhos lhes suscitarão numa nova existência.

[3] O Espiritismo não é contrário à crença dogmática relativa à natureza do Cristo e, neste caso, pode ele dizer-se o complemento do Evangelho, se o contradiz?

A solução desta questão toca apenas de maneira acessória o Espiritismo, que não tem que se preocupar com dogmas particulares de tal ou qual religião. Simples doutrina filosófica, não se arvora nem em campeão nem em adversário sistemático de nenhum culto e deixa a cada um a sua crença.

A questão de natureza do Cristo é capital do ponto de vista cristão. Ela não pode ser tratada levianamente, e não são as opiniões pessoais nem dos homens nem dos Espíritos que podem decidi-la. Em assunto semelhante, não basta afirmar ou negar. É preciso provar. Ora, de todas as razões alegadas pró ou contra, não há nenhuma que não seja mais ou menos hipotética, porque todas são controvertidas. Os materialistas não viram a coisa senão com os olhos da incredulidade e a ideia preconcebida de negação; os teólogos com os olhos da fé cega, e a ideia preconcebida da afirmação; nem uns nem outros estavam nas condições de imparcialidade necessárias; interessados em sustentar sua opinião, só viram e procuram o que a ela poderia ser favorável e fecharam os olhos ao que lhe podia ser contrário. Se a questão é a tanto tempo discutida e ainda não foi resolvida de maneira peremptória, é que faltaram os únicos elementos que lhe podiam dar a chave, absolutamente como faltava aos sábios da Antiguidade o conhecimento das leis da luz, para explicar o fenômeno do arco-íris.

O Espiritismo é neutro na questão; ele não está mais interessado numa solução do que na outra; ele avançou sem isto e continuará avançando, seja qual for o resultado; colocado fora dos dogmas particulares, não é para ele uma questão de vida ou morte. Quando ele a abordar, apoiando todas as suas teorias nos fatos, resolvê-la-á pelos fatos, e isso em tempo oportuno. Se tivesse urgência, ela já estaria resolvida. Os elementos de uma solução hoje estão completos, mas o terreno ainda não está preparado para receber a semente. Uma solução prematura, fosse qual fosse, encontraria muita oposição de parte a parte, e afastaria do Espiritismo mais partidários do que conquistaria. Eis por que a prudência nos impõe o dever de nos abstermos de toda polêmica sobre este assunto, até que estejamos certo de poder pôr o pé em terreno sólido. Enquanto se espera, deixamos que discutam pró e contra, fora do Espiritismo, sem nisto tomar parte, deixando que os dois partidos esgotem os argumentos. Quando o momento for propício, levaremos para a balança, não a nossa opinião pessoal, que não tem nenhum peso nem pode fazer lei, mas fatos até este momento não observados, e então cada um poderá julgar com conhecimento de causa. Tudo quanto podemos dizer, sem prejulgar a questão, é que a solução, em qualquer sentido em que for dada, não contradirá nem os atos nem as palavras do Cristo, mas, ao contrário, os confirmará, elucidando-os.

Assim, àqueles que nos perguntam o que diz o Espiritismo sobre a natureza de Cristo, respondemos invariavelmente: “É uma questão de dogma estranha ao objetivo da Doutrina.” O objetivo que todo Espírita deve ter em mira, se quiser merecer esse título, é seu próprio melhoramento moral. Eu sou melhor do que o era? Corrigi-me de algum defeito? Fiz o bem ou o mal ao próximo? Eis o que todo Espírita sincero e convicto deve perguntar. Que importa saber se o Cristo era Deus ou não, se continuo sendo egoísta, orgulhoso, ciumento, invejoso, colérico, maledicente, caluniador? A melhor maneira de honrar o Cristo é imitá-lo em sua conduta. Quanto mais o elevamos no pensamento, menos somos dignos dele e mais o insultamos e profanamos, fazendo o contrário do que ele diz. O Espiritismo diz aos seus adeptos: “Praticai as virtudes recomendadas pelo Cristo e sereis mais cristãos que muitos dos que tal se dizem.” Aos católicos, protestantes e outros, ele diz: “Se temeis que o Espiritismo perturbe a vossa consciência, não vos ocupeis dele.” Ele não se dirige senão aos que a ele vêm livremente, e que dele necessitam. Ele não se dirige àqueles que têm uma fé qualquer e aos quais essa fé basta, mas aos que não têm ou que duvidam, e lhes dá a crença que lhes falta, não mais particularmente a do Catolicismo que a do Protestantismo, do Judaísmo ou do Islamismo, mas a crença fundamental, base indispensável de toda religião. Aí termina o seu papel. Estabelecida esta base, cada um fica livre de seguir a rota que melhor satisfaça à sua razão.

 

[4] Nosso papel pessoal no grande movimento de ideias que se prepara pelo Espiritismo, e que já começa a se operar, é o de um observador atento que estuda os fatos para lhes buscar as causas e tirar as suas consequências. Confrontamos todos os que nos foi possível reunir; comparamos e comentamos as instruções dadas pelos Espíritos em todos os pontos da Terra, depois coordenamos tudo metodicamente. Numa palavra, estudamos e tornamos público o fruto de nossas pesquisas, sem atribuir aos nossos trabalhos outro valor senão o de uma obra filosófica deduzida da observação e da experiência, sem jamais nos termos arvorado em chefe de Doutrina, nem ter querido impor nossas ideias a ninguém. Publicando-os, fizemos uso de um direito comum, e aqueles que os aceitaram fizeram-no livremente. Se essas ideias encontraram numerosas simpatias, é que elas tiveram a vantagem de corresponder às aspirações de um grande número, do que não poderíamos tirar vantagem, porquanto a origem não nos pertence. Nosso maior mérito é o da perseverança e do devotamento à causa que abraçamos. Em tudo isto temos feito o que outros poderiam ter feito como nós. Eis por que jamais tivemos a pretensão de nos crer profeta ou messias e, ainda menos, de nos considerarmos como tal.

Sem ter nenhuma das qualidades exteriores da mediunidade efetiva, não contestamos em ser assistidos pelos Espíritos em nossos trabalhos, pois temos provas muito evidentes para não duvidar, o que sem dúvida devemos à nossa boa vontade, e o que é dado a cada um merecer. Além das ideias que reconhecemos nos serem sugeridas, é notável que assuntos de estudo e de observação, numa palavra, tudo quanto pode ser útil à realização da obra, sempre nos chega a propósito. ─ Noutros tempos diriam: como por encanto, ─ de sorte que os materiais e documentos do trabalho jamais nos faltam. Se tivermos que tratar de um assunto, estamos certos que, sem o pedir, os elementos necessários à sua elaboração nos são fornecidos, e isso por meios que são absolutamente naturais, mas que sem dúvida são provocados por nossos colaboradores invisíveis, como tantas coisas que o mundo atribui ao acaso.

 

[5] O Livro dos Espíritos, a primeira obra que fez o Espiritismo entrar e via filosófica, pela dedução das consequências morais dos fatos, que abordou todas as partes da Doutrina, tocando nas mais importantes questões que ela levanta, foi, desde o seu aparecimento, o ponto de ligação para o qual espontaneamente convergiram os trabalhos individuais. É notório que, da publicação desse livro, data a era do Espiritismo filosófico, até então no domínio das experiências de curiosidade. Se esse livro conquistou as simpatias da maioria, é que ele era a expressão dos sentimentos dessa mesma maioria, e respondia às suas aspirações; é, também, porque cada um aí encontrava a confirmação ou uma explicação racional do que obtinha em particular. Se ele estivesse em desacordo com o ensino geral dos Espíritos, não teria tido nenhum crédito e prontamente teria caído no esquecimento. Ora, a quem se ligou? Não foi ao homem, que por si mesmo nada é, cavilha mestra que morre e desaparece, mas à ideia, que não perece quando emana de uma fonte superior ao homem.

Essa concentração espontânea das forças esparsas deu lugar a uma correspondência imensa, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se refletem, ao mesmo tempo, os trabalhos parciais, os sentimentos          múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, os devotamentos e os as falências; arquivos preciosos para a posterioridade, que poderá julgar os homens e as coisas em peças autênticas. Em presença destes testemunhos irrecusáveis, em que se tornarão, em consequência, todas as falsas alegações, as difamações da inveja e do ciúme?

[6] Um testemunho significativo, tão notável quão tocante dessa comunhão de pensamentos que se estabeleceu entre os espíritas pela conformidade das crenças, são os pedidos de preces que nos vêm das mais remotas paragens, desde o Peru até os extremos da Ásia, de parte de pessoas de religiões e nacionalidades diversas, e que jamais vimos. Não é isto o prelúdio da grande unificação que se prepara, a prova das raízes sérias que por toda parte o Espiritismo lança?

É notável que, de todos os grupos que se formaram com a intenção premeditada de fazer cisão, proclamando princípios divergentes, assim como os que, em razão do amor-próprio ou por outros motivos, não querendo ter a aparência de submissão à lei comum, julgaram-se bastante fortes para marchar sós, com bastante luzes para dispensar conselhos, nenhum chegou a constituir uma unidade preponderante e viável; todos se extinguiram ou vegetaram na sombra. Como poderia ser de outro modo, desde que, para se distinguir, em vez de se esforçar para dar uma maior soma de satisfações, eles rejeitavam princípios da Doutrina, precisamente o que constitui seu mais poderoso atrativo, o que há de mais conciliador, de mais encorajador e de mais racional? Se eles tivessem compreendido o poder dos elementos morais que constituíram a unidade, não se teriam embalado em ilusões quiméricas, mas tomando o seu pequeno círculo pelo Universo, não viram nos aderentes mais que uma camarilha que facilmente poderia ser derrubada por uma contra-camarilha. Era equivocar-se estranhamente sobre os caracteres essenciais da doutrina, e esse erro só poderia trazer decepções, porque não se fere impunemente o sentimento de uma massa que tem convicções assentadas em bases sólidas. Em vez de romper a unidade, eles quebraram o único elo que lhes poderia dar força e vida. (Vide Revista Espírita de abril de 1866: O Espiritismo sem os Espíritos; o Espiritismo independente).

[7] Ante declarações tão claras e categóricas quanto as contidas neste capítulo, caem todas as alegações de tendência para o absolutismo e para a autocracia dos princípios, todas as falsas assimilações que criaturas prevenidas ou mal informadas atribuem à Doutrina. Ademais, essas declarações não são novas: nós as repetimos muitas vezes em nossos escritos, para não deixar qualquer dúvida a esse respeito. Além disso, elas nos sinalizam nosso verdadeiro papel, o único que ambicionamos: o de trabalhador.


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